
Tocaremos o tributo ao Lenine e músicas de Céu, Seu Jorge, Djavan, entre outros.
Contamos com a presença de todos.


Este é um texto do filho de LENINE comentando, com muita propriedade, o novo trabalho do pai.
Texto tirado do link:
http://www.atarde.com.br/cultura/noticia.jsf?id=963014
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Um desavisado diria que meu pai trafega nas interseções. Entre a vanguarda e a resistência; entre o ruído e a pausa; entre o registro e a circunstância. Lenine não trafega nas interseções, ele as cria. Interseções de tudo que ele incorpora nas suas viagens, físicas e metafísicas mundos afora. Sempre munido do espírito-esponja que retém o que lhe interessa de tudo que absorve.
Absorvido, pois, vinha sendo Labiata, que meu pai agora espreme e exprime de si – e das esponjas de que se cerca. Labiata é o álbum-dilema de quem vive à moda esponja: uma peça pronta, complexa e sólida de um quebra-cabeças em aberto. Um íntimo atestado da continuidade do ineditismo.
São íntimos Guila, Pantico e JR Tostoi, com Lenine nos palcos há bastante tempo e em quase todas as faixas de Labiata. Tostoi, inclusive, divide com ele a produção do álbum e imprime uma nova palheta de timbres à mistura. São íntimos os parceiros-esponja Arnaldo Antunes, Bráulio Tavares, Carlos Rennó, Dudu Falcão, Ivan Santos, Lula Queiroga e Paulo César Pinheiro. E como são íntimas a inédita parceria com Chico Science e a inédita presença de China, herdeiro direto da subversão estética scienciana…
O álbum é, portanto, a devassa conseqüência da intimidade do processo. Um álbum andrógino, viril e delicado, a exemplo da orquídea que lhe empresta o nome. As orquídeas, aliás, mais exclusivas das flores, são um enigma entre o estigma incauto da promiscuidade do que brota em toda parte e o deslumbre do que encanta à primeira vista. Meu pai tem verdadeira obsessão por elas. Não é por acaso.
Labiata martela anseios, sonha deusas esguias, cirandeia romances, relativiza céus, samba mundos e cria eus. Mas um álbum com nome de flor não podia omitir-se diante da tragédia anunciada. Grande parte do disco é dedicada a engrossar o coro da perspectiva da catástrofe. Não a sonhada por Hollywood, de aniquilação imediata e indolor, mas a hecatombe silenciosa da negligência. A mensagem, entretanto, não é niilista – ainda que seja punk.
Enfim, o novo álbum de estúdio de Lenine, primeiro desde Falange Canibal (2002), é, a meu ver, um recorte de seu tempo. Labiata é perfumado. Labiata é contundente. Faço minhas as palavras, faço meus os sons. Faço parte, ao lado de meus irmãos Bruno e Bernardo, na emblemática “Continuação”. A genética só me credencia ainda mais a dizer tudo que disse com a insuspeição de quem acumula o prazer de ser tão filho quanto fã de Lenine mas, ao mesmo tempo, orgulha-se de pensar ter herdado uma das maiores virtudes do pai: o critério.
*João Cavalcanti é músico e jornalista.
